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Literatura Russa: o guia definitivo para conhecer Dostoiévski, Tolstói e outros grandes mestres

Uma rua de São Petersburgo à noite, com neve, lampiões a gás iluminando a neblina, um banco de praça vazio coberto de neve, pegadas se afastando e cúpulas de igrejas ortodoxas ao fundo.

Ler Crime e Castigo foi uma das experiências mais perturbadoras que já tive com um livro. Não pela violência, nem pelo suspense de saber se Raskólnikov seria pego. O que me prendeu foi outra coisa: eu estava dentro da cabeça dele.

Cada racionalização, cada paroxismo de culpa, cada momento em que ele se odiava e depois se justificava de novo. Eu queria saber o que ia acontecer, sim, mas acima de tudo queria saber como os pensamentos e sentimentos dele iriam se desenrolar. Era como se Dostoiévski tivesse aberto a caixa preta de uma mente em colapso e me convidado a espiar.

Essa é a porta de entrada para a literatura russa. É uma literatura sobre o que acontece dentro de quem vive. Quanto ao “lado de fora”, geralmente só interessa na medida em que ecoa o lado de dentro.

O que é literatura russa

A literatura russa clássica é o conjunto de obras produzidas principalmente ao longo do século XIX e início do século XX, num período que os críticos chamam de Era de Ouro. Num intervalo de menos de cem anos, um punhado de autores produziu uma quantidade desproporcional de obras que mudaram a forma como o Ocidente pensa sobre romance, psicologia e o sentido da existência.

O que torna isso ainda mais impressionante é o contexto. Enquanto a Europa já tinha Shakespeare, Cervantes e Goethe, a Rússia engatinhava literariamente. Até o início do século XIX, a literatura russa era basicamente poesia e influência francesa.

Foi só com Pushkin, nos anos 1830, que a Rússia começou a produzir uma literatura que parecia falar com a voz do país. Então, em poucas décadas, vieram Gógol, Turguêniev, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov. Uma explosão sem paralelo na história literária.

Por que a literatura russa mexe tanto com a gente

Já aconteceu de você terminar um capítulo de um livro e ter que fechá-lo por uns minutos para processar o que tinha acabado de ler? Esse é o efeito mais comum de um bom romance russo.

Três fatores explicam essa potência.

1. O contexto histórico

A Rússia do século XIX era um país de contrastes absurdos. Uma elite que falava francês e uma massa camponesa analfabeta. Um czar autocrata e uma intelligentsia fermentando revolução (a intelligentsia era a classe de intelectuais, artistas e pensadores que questionava o regime). Censura pesada e, por isso mesmo, uma literatura que aprendia a dizer nas entrelinhas o que não podia ser dito.

O objetivo dos escritores russos não era simplesmente entreter. Escreviam para discutir o destino do país, o sentido da vida, a existência de Deus. A literatura era o espaço onde tudo podia ser perguntado.

2. A busca pelo sentido da vida como tema central

Personagens russos passam um livro inteiro tentando responder a perguntas que a maioria das pessoas evita. O que é uma vida boa? Deus existe? Se não existe, preciso mesmo ser bom? A sociedade é corrupta ou eu é que sou?

Essa angústia existencial é o motor da narrativa. Num romance russo, o conflito principal quase nunca é externo. É interno.

3. A profundidade psicológica

Nenhuma literatura antes da russa tinha se dedicado tanto a explorar o que se passa na mente de uma pessoa. Dostoiévski levou isso ao extremo. Mas Tolstói também. Tchekhov também. Cada um a seu modo.

E essa entrega ao exame da alma humana é o que faz um leitor terminar Crime e Castigo e se sentir meio Raskólnikov, meio investigador, meio cúmplice.

Os gigantes da literatura russa

Organizei abaixo os principais autores com o essencial para você começar.

AutorPor que é importanteObra de entradaSe você gosta de
DostoiévskiPsicologia do sofrimento e da culpaCrime e CastigoPersonagens torturados e dilemas morais
TolstóiÉpico da alma em busca de sentidoAnna KareninaNarrativas amplas e reflexões sobre a vida
TchekhovA beleza do que não é ditoA Dama do Cachorrinho e outros contosHistórias curtas e melancolia sutil
GógolO absurdo como denúnciaO CapoteSátira social com toque de nonsense
TurguênievConflito de gerações e ideiasPais e FilhosRomance de formação e debates filosóficos
PushkinO fundador de tudoEugene OneginPoesia narrativa e romance em versos

Dostoiévski: a anatomia da mente em crise

Dostoiévski é, para mim, um dos autores mais perturbadores que já li. Nem tanto pela escolha de temas, embora eles sejam pesados: assassinato, culpa, fé, desespero e redenção. O que mais perturba é a forma como ele narra.

Você não observa os personagens de fora. Você habita o pensamento deles. As frases são longas, entrecortadas, cheias de hesitações e explosões. É como ouvir uma pessoa falando sozinha num quarto escuro.

Em Crime e Castigo, essa técnica atinge o ápice. Raskólnikov não é um herói nem um vilão. É um jovem inteligente que comete um erro monstruoso e passa o resto do livro tentando conviver com as consequências.

O que Dostoiévski faz de genial é mostrar que a tensão do romance não está no “será que ele vai ser pego?”. Está em acompanhar de perto como a mente de uma pessoa lida com o peso do que fez.

Se você quiser se aprofundar, vale ler também a análise de Dostoiévski que está aqui no blog, que analisa a tensão entre fé e desespero em sua obra.

Tolstói: o gigante que queria respostas

Se Dostoiévski é o autor da crise, Tolstói é o autor da busca. Ele escreveu dois dos maiores romances da história, Guerra e Paz e Anna Karenina, e passou a vida tentando entender o que faz uma vida valer a pena.

O que impressiona em Tolstói é a escala. Ele consegue narrar uma batalha napoleônica com a mesma precisão com que descreve o tédio de uma festa da nobreza. Seus personagens são tão reais que você sente que poderia encontrá-los numa esquina.

E, no meio disso tudo, há uma perguntinha incômoda que nunca sai de cena: já que tudo termina em morte, o que fazer com o tempo que temos?

Anna Karenina começa com uma frase que resume meio século de literatura russa: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Se você ler só um livro de Tolstói, que seja esse.

Tchekhov: o mestre do silêncio

Tchekhov era médico e escrevia nas horas vagas. Essa informação parece boba, mas explica muita coisa. Médicos enxergam a fragilidade do corpo e a indiferença da natureza. Tchekhov traduziu esse olhar para a literatura.

Os contos dele são pequenas obras-primas de economia. Nada é explicado demais. Um personagem olha pela janela, e você entende que a vida dele desmoronou. Outro pede um copo de água, e você percebe que ele está prestes a chorar. Tchekhov confia na inteligência do leitor. Ele não diz. Ele mostra.

Gógol: o absurdo como ferramenta

Gógol é o autor que mais se aproxima do que hoje chamaríamos de humor macabro. Ele escrevia sobre burocratas, narizes que fogem do rosto e cartas que se perdem em repartições públicas. É uma sátira ao funcionamento da Rússia czarista, mas é também uma celebração do absurdo da vida.

O conto O Capote é o ponto de partida perfeito. A história de um funcionário público humilde que junta dinheiro por meses para comprar um capote novo. A partir daí, o conto se desdobra numa trama que mistura tragédia e absurdo com um desfecho que muitos críticos consideram fundador de uma tradição literária.

Fun fact: muita gente acredita ter sido Dostoiévski quem disse que “todos saímos d’O Capote de Gógol'”. Mas essa frase nunca foi encontrada em seus escritos. Ela foi dita por um escritor russo desconhecido e popularizada pelo crítico francês Eugène-Melchior de Vogüé em 1886, que assim resumiu a influência do curto conto de Gógol sobre os gigantes da literatura russa que vieram a seguir.

Turguêniev e Pushkin: as fundações

Antes dos gigantes, houve quem preparasse o terreno. Pushkin é considerado o pai da literatura russa moderna. Eugene Onegin é um romance em versos que influenciou tudo que veio depois. Turguêniev, por sua vez, escreveu Pais e Filhos, que capturou o conflito entre a velha geração aristocrata e os novos niilistas. Se você gosta de entender como as ideias políticas influenciam as pessoas, Turguêniev é seu autor.

Obras essenciais organizadas por perfil de leitor

A parte mais difícil de começar na literatura russa a grande quantidade de opções. E também o tamanho de várias dessas obras. Guerra e Paz tem mais de mil páginas. Onde começar?

A resposta depende do seu gosto.

Perfil de leitorObra recomendadaAutorPor que essa
Drama psicológico intensoCrime e CastigoDostoiévskiA porta de entrada clássica para a psicologia russa
Tragédia românticaAnna KareninaTolstóiPaixão, traição e a busca por sentido
Algo curto, mas densoA Dama do CachorrinhoTchekhovUm conto perfeito sobre solidão a dois
Sátira e absurdoO CapoteGógolTrinta páginas que fundaram um estilo
Romance de formaçãoPais e FilhosTurguênievO embate entre gerações que ainda ecoa hoje
Epopeia totalGuerra e PazTolstóiQuando você quer mergulhar de cabeça
Solidão e sonhoNoites BrancasDostoiévskiUm romance curtinho sobre esperança e desilusão
Existencialismo russoMemórias do SubsoloDostoiévskiO precursor de toda a literatura existencialista

Essa tabela serve como mapa. Escolha o perfil que mais se parece com você e comece por ali.

O que torna a prosa russa tão envolvente

Algumas características se repetem nos autores russos e ajudam a entender por que sua leitura é uma experiência diferente de qualquer outra literatura:

  • A extensão: romances russos são longos. Não por acaso. O tamanho é uma escolha deliberada para criar imersão. Você não lê um romance russo: você mora nele por algumas semanas. Os personagens se tornam nossos conhecidos, depois amigos, depois pessoas sobre quem temos fortes opiniões.
  • A questão dos nomes: personagens russos têm nome, patronímico, sobrenome, apelidos e diminutivos. Raskólnikov é Rodion Romanovich, mas também Ródia ou Ródka. Parece confuso no começo, mas você se acostuma. E, de quebra, ganha uma camada extra de sentido: quem o chama de Ródia é alguém próximo; quem o chama de Rodion Romanovich está mantendo distância. É como se o idioma já contivesse a informação do relacionamento entre os personagens.
  • A tradução como barreira: a literatura russa perde muito na tradução, mas alguns tradutores conseguem preservar o essencial. No Brasil, as traduções de Paulo Bezerra (Dostoiévski direto do russo) e de Rubens Figueiredo (Tolstói) são referência. Evite traduções indiretas (do inglês ou do francês) quando possível. A diferença é gritante.
  • O humor que se perde: os russos têm um humor seco, irônico e autodepreciativo. Muita gente acha que literatura russa é só tragédia e sofrimento. Mas não é. Dostoiévski tem passagens hilárias. Gógol é um comediante nato. O que acontece é que o humor russo é sutil e muitas vezes não sobrevive à tradução.

Como ler literatura russa sem medo

Talvez você conheça alguém que tentou ler Guerra e Paz e desistiu logo no começo. Vou tentar evitar que isso aconteça com você:

  • Não comece pelo maior: Crime e Castigo tem um tamanho amigável (cerca de 500 páginas, dependendo da edição). Noites Brancas tem umas oitenta. A Dama do Cachorrinho cabe numa sentada. Comece pequeno. Depois vá subindo.
  • Use edições com notas de rodapé: a literatura russa está cheia de referências históricas e culturais que um leitor brasileiro não vai pegar sozinho. Edições da Editora 34, Companhia das Letras e Penguin têm notas que explicam sem atrapalhar a leitura.
  • Leia contos como aquecimento: Tchekhov e Gógol escreveram contos magistrais. Antes de encarar um calhamaço, leia uns cinco contos de Tchekhov. Você vai sentir a atmosfera, pegar o ritmo e entender se a literatura russa é para você.
  • Desista sem culpa: se um livro não te prendeu depois de umas 80 páginas, largue. Tente de novo no futuro.
  • Se você não gostou de um, experimente outro: Quem gosta de Dostoiévski nem sempre gosta de Tolstói, e vice-versa. Dostoiévski é tensão, noite, febre. Tolstói é amplitude, campo, luz. Os dois são grandes. Mas um pode falar mais com você do que o outro.

Se quiser saber mais, o guia sobre livros curtos para começar a ler clássicos tem sugestões que cabem no fim de semana.

Qual foi o livro russo que bagunçou sua cabeça?

No fim das contas, literatura russa não se explica. Se vive. É pegar um livro, sentar num canto e deixar que um russo morto há cem anos comece a conversar com você pelas bocas dos personagens. Pode ser que você saia dessa conversa diferente. Pode ser que não. Mas uma coisa é certa: você não vai sair indiferente.

Comece por Crime e Castigo. Ou por Anna Karenina. Ou por um conto do Tchekhov que você lê enquanto o café esfria. O importante é começar. Depois volte aqui e me conta o que achou. E se você já tem um livro russo que te marcou, deixa nos comentários. Sempre tem alguém procurando a próxima leitura.

Capa do livro Crime e Castigo, de Dostoiévski

Crime e Castigo, de Dostoiévski

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Perguntas frequentes sobre literatura russa

Por onde começar a ler literatura russa?

Pela obra que mais combina com o seu perfil. A escolha mais segura é Crime e Castigo, porque é acessível e representa bem o que a literatura russa tem de melhor: profundidade psicológica, dilemas morais e uma história que prende. Se você prefere algo mais curto, Noites Brancas ou um conto de Tchekhov são boas opções.

Qual a melhor tradução de Dostoiévski?

Paulo Bezerra (Editora 34) é a referência no Brasil. Ele traduziu diretamente do russo e tem um cuidado enorme com o tom e o ritmo do original. Para Tolstói, Rubens Figueiredo (Companhia das Letras) é a melhor opção. O tradutor fez um trabalho minucioso de pesquisa para recriar o vocabulário e os registros de fala da Rússia do século XIX.

Literatura russa é toda triste?

Não, mas também não é exatamente alegre. O que acontece é que os autores russos levam a sério a tarefa de examinar a vida sem maquiagem. Isso inclui tristeza, sim, mas também ironia, afeto, beleza e, em alguns casos, humor genuíno. Tchekhov, em especial, tem uma leveza que surpreende quem chega com o estereótipo do “sofrimento russo”.

Preciso conhecer a história da Rússia para entender os livros?

Ajuda, mas não é obrigatório. As grandes obras russas funcionam como literatura universal: os dilemas humanos retratados transcendem o contexto histórico. Dito isso, uma leitura prévia sobre a Rússia czarista, a servidão feudal e o niilismo vai enriquecer a experiência. As edições comentadas dão conta disso sem que você precise fazer uma pesquisa separada.

É verdade que a literatura russa influenciou outros autores?

Muito. A literatura russa do século XIX influenciou praticamente toda a literatura ocidental do século XX. Hemingway, Faulkner, Woolf, Kafka e Camus: todos beberam da fonte russa. Você encontra ecos de Dostoiévski em Ensaio sobre a Cegueira e ressonâncias de Tchekhov na prosa de Clarice Lispector.

Os livros russos são difíceis de ler?

Alguns são; a maioria não. A dificuldade maior não é a linguagem (as traduções modernas são muito boas), mas a densidade emocional. Um romance russo exige que você esteja disposto a sentar com seus próprios pensamentos enquanto acompanha os personagens. Se você está num momento da vida em que quer ler para se distrair, talvez não seja a melhor escolha. Mas se você quer ler para se encontrar com o que está lendo, a literatura russa é imbatível.

O que significa um clássico russo hoje?

Um clássico russo continua sendo um livro que tem algo a dizer sobre a condição humana. As perguntas que Dostoiévski e Tolstói faziam não envelheceram. A culpa, a busca por sentido, a relação entre o indivíduo e a sociedade, o amor, a morte, o tédio. Tudo isso ainda está aí. O que mudou foi a roupagem, não a essência.

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