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Machado de Assis: uma biografia do bruxo que criou uma filosofia para justificar o pior de nós

Retrato ilustrado de Machado de Assis sentado em poltrona, ambiente do Rio de Janeiro antigo ao fundo.

Tem uma cena em Quincas Borba que me chamou muito a atenção quando li. Rubião, já em declínio, se lembra da morte da avó. Ele sentiu uma dor verdadeira, daquelas que apertam o peito e não deixam dúvida. Mas logo em seguida veio o pensamento na herança. E a filosofia do Humanitismo, criada pelo amigo Quincas Borba, oferecia uma explicação: aquilo era a “conservação da vida”, o “Humanitas” se depurando.

O que Machado de Assis fez ali foi expor um mecanismo que todo mundo conhece, mas ninguém admite. A mente humana cria narrativas para justificar o que foge da moral, do decente, do honesto. Sem culpa, sem remorso. Empresas exploram funcionários. Governos exploram o povo. Pessoas prejudicam outras. E sempre há uma filosofia, uma ideologia ou uma desculpa pronta.

Machado sabia disso. E passou a vida escrevendo sobre isso. Mas como um menino pobre, neto de escravos, chegou a esse nível de lucidez?

O menino do morro que lia em francês

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro. A família era modesta. O pai, Francisco, era pintor de paredes e filho de escravos alforriados. A mãe, Maria Leopoldina, era lavadeira e açoriana. Machado cresceu num sobrado onde a avó paterna, também ex-escrava, trabalhava como doceira.

Aos dez anos, perdeu a mãe. O padrasto o matriculou em uma escola primária, mas Machado não ficou muito tempo. Cedo começou a trabalhar: primeiro como caixeiro em uma livraria, depois como tipógrafo na Imprensa Nacional. Foi ali, lidando com livros e provas tipográficas, que aprendeu sozinho. Leu os clássicos portugueses, franceses e ingleses. Aprendeu francês, inglês e alemão por conta própria.

Aos dezesseis anos, publicou o primeiro poema. Aos vinte, já era colaborador de jornais e revistas. Não fez faculdade, não teve diploma. Teve fome de leitura e uma memória prodigiosa para guardar o que lia. Algo que lembra a trajetória de outros autores que vieram de origens modestas, como Frank Herbert.

Você olha para essa trajetória e pensa: o que um menino daquele ambiente poderia saber sobre a elite, sobre os jogos de poder, sobre a hipocrisia social? A resposta é: muito mais do que eles mesmos sabiam.

O funcionário público que escrevia à noite

Diferente do que você talvez imagine, Machado não viveu de literatura. Aos trinta e quatro anos, foi nomeado funcionário do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Subiu devagar na carreira. Chegou a diretor-geral da Contabilidade. Bateu ponto, assinou papéis, cumpriu expediente. A vida de escritor era paralela.

Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, uma portuguesa culta, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais. Carolina foi leitora, revisora e companheira por trinta e cinco anos. Não tiveram filhos. O cotidiano do casal era simples: moraram em casas alugadas no Rio, primeiro na Rua da Lapa, depois no Cosme Velho. Machado escrevia à noite, depois do trabalho.

Aquela rotina explica um traço do estilo. Machado não escrevia no afã da inspiração romântica. Escrevia com disciplina de quem tinha horário. Isso talvez explique por que sua prosa é tão controlada e precisa. Cada ironia parece calculada, cada digressão tem um propósito. Não há excessos. Há contenção.

Em 1904, Carolina morreu. Machado nunca se recuperou. Os últimos anos foram de solidão e saúde frágil. Morreu em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos.

A virada: Memórias Póstumas e o Realismo

Antes de 1881, Machado era um escritor respeitado, mas não extraordinário. Escrevia romances dentro do estilo romântico da época, como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena Iaiá Garcia. Eram livros bem-feitos, com casais, desencontros e finais previsíveis. Nada que o diferenciasse de dezenas de outros autores brasileiros.

Então veio Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Um romance narrado por um defunto. Capítulos de duas páginas. Dedicatória a um verme. Conversas diretas com o leitor. Um pessimismo seco, sem redenção. O público não sabia o que fazer com aquilo. A crítica estranhou. Machado, aos 42 anos, tinha jogado fora tudo que funcionava e inventado algo novo.

O Realismo brasileiro começava ali. E começava com um livro que até hoje parece moderno. Era o marco zero da literatura brasileira clássica como a conhecemos.

O que mudou? Não se sabe ao certo. Talvez a maturidade. Talvez a perda de ilusões. Talvez Machado tenha percebido que o romance romântico mentia. Mentia sobre o amor, as pessoas e o mundo. Ele decidiu não mentir mais.

Depois de Brás Cubas, vieram Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). Cada um aprofundando um aspecto diferente da mesma visão: a de que as pessoas são movidas por interesses, vaidades e autoengano, e que a sociedade é um palco onde todos representam.

O Humanitismo

Em Quincas Borba, o filósofo louco Quincas Borba cria uma doutrina chamada Humanitismo. A ideia central é que existe uma força universal chamada Humanitas, que se manifesta em todos os seres e busca a própria conservação. Guerra, fome e exploração: tudo é Humanitas se depurando, eliminando o fraco para fortalecer o todo.

Machado estava claramente satirizando o positivismo, o darwinismo social e outras filosofias do século XIX que tentavam explicar (e justificar) as desigualdades com um verniz científico. É o mesmo tipo de crítica que aparece em livros como Admirável Mundo Novo, onde a ciência vira ferramenta de controle. Mas a sátira funciona porque ela atinge algo real.

Lembra da passagem do Rubião com a avó? A dor verdadeira e o pensamento na herança coexistindo. O Humanitismo oferecia uma narrativa que resolvia a contradição: não era egoísmo, era a vida se conservando. É a mesma lógica de um executivo que explora funcionários e chama de “otimização de recursos”. De um governo que oprime e chama de “ordem”. De cada um de nós, em pequena escala, arrumando uma desculpa para o que não tem desculpa.

De acordo com Machado, todo mundo é capaz de se convencer de que é bom, mesmo quando não está sendo. Quem já leu Crime e Castigo talvez pense em Raskólnikov nesse momento.

O bruxo do Cosme Velho

O apelido “bruxo do Cosme Velho” surgiu ainda em vida, devido ao seu hábito de queimar papéis velhos em um caldeirão no quintal de sua casa à Rua Cosme Velho. No entanto, foi imortalizado décadas depois por Carlos Drummond de Andrade no poema A Um Bruxo, Com Amor. A alcunha pegou porque combina com ele. Bruxo não no sentido sobrenatural, mas no sentido de alguém que enxerga o que outros não enxergam.

Machado era reservado e irônico. Era quase evasivo. Nos poucos relatos de contemporâneos, aparece como um homem quieto que observava mais do que falava. Gaguejava levemente. Tinha um sorriso enigmático. Os amigos diziam que ele nunca dava uma opinião direta sobre nada. Preferia uma piada seca ou um desvio de assunto.

Essa personalidade se reflete na obra. O narrador machadiano nunca diz exatamente o que pensa. Ele insinua, desvia, ironiza e deixa pistas. Cabe a você juntar as peças. É desconfortável. Mas é também por isso que seus livros pedem releitura: você sempre descobre uma camada que tinha escapado.

Frases que dão o que pensar

Machado é um dos autores mais citados da língua portuguesa. Algumas frases viraram quase provérbios. Vale a pena revisitá-las:

FraseObraO que realmente significa
“Ao vencedor, as batatas.”Quincas BorbaNão é um elogio ao mérito. É uma constatação amarga: o mundo pertence a quem vence, não a quem merece.
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”Memórias Póstumas de Brás CubasBrás Cubas quantifica matematicamente o “amor” de sua amante, escancarando como as relações afetivas na elite do século XIX eram mediadas pelo dinheiro e pelo interesse material, sem nenhum romantismo.
“As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela.”Dom CasmurroO narrador machadiano entende o mundo social como um teatro de aparências. Em vez de lamentar a falsidade humana, o personagem a adota como uma regra de sobrevivência prática.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”Memórias Póstumas de Brás CubasPode ser lida como pessimismo ou como alívio. Machado deixa as duas interpretações no ar.

Principais obras

ObraAnoO que esperar
Memórias Póstumas de Brás Cubas1881Narrada por um defunto. Curta, ácida, revolucionária. O marco zero do Realismo brasileiro.
O Alienista1882Novela sobre um médico que interna toda a cidade. Uma sátira sobre razão e loucura que envelheceu muito bem.
Papéis Avulsos1882Coletânea de contos. Inclui “O Alienista” e outras pérolas como “A Sereníssima República” e “O Espelho”.
Quincas Borba1891A filosofia do Humanitismo na prática. Um ingênuo que herda uma fortuna e descobre que o mundo não perdoa.
Dom Casmurro1899O livro da dúvida. Bentinho conta sua versão da história, mas você nunca vai saber se Capitu traiu ou não.
Esaú e Jacó1904Gêmeos idênticos com personalidades opostas. Uma alegoria sobre o Brasil dividido entre monarquia e república.
Memorial de Aires1908Último romance. Tom melancólico e suave. Um conselheiro aposentado registra o cotidiano com a sabedoria de quem já não espera nada.

O que fica depois de fechar o livro

Ler Machado de Assis é meio que como olhar no espelho e ver algo que você preferia não ter visto. Uma ruga. Um fio de cabelo a menos. Nada catastrófico, mas incômodo. É uma sensação parecida com a que fica depois de ler A Metamorfose, onde o que mais incomoda é a reação da família, não o inseto.

O que fica depois de fechar Quincas Borba é a sensação de já ter feito exatamente o que ele fez: sentido uma coisa e se convencido de outra. Arrumado uma desculpa elegante para um impulso que não era tão nobre assim.

Muitas vezes, ler Machado é uma atividade solitária. Você termina o livro e talvez não tenha com quem discutir. Mas, a bem da verdade, a conversa é com você mesmo.

Capa do livro Quincas Borba, de Machado de Assis

Quincas Borba, de Machado de Assis

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Perguntas frequentes sobre Machado de Assis

1. Machado de Assis era negro?

Sim. Machado era filho de um pintor de paredes neto de escravos alforriados e de uma lavadeira açoriana. Cresceu no Morro do Livramento, numa família modesta. Apesar de ter enfrentado preconceito ao longo da vida (inclusive em críticas literárias da época com tom racial), tornou-se o maior nome da literatura brasileira e fundador da Academia Brasileira de Letras.

2. Quantos livros Machado de Assis escreveu?

Machado escreveu 9 romances, 10 peças de teatro, mais de 200 contos, 5 coletâneas de poemas e dezenas de crônicas. Os romances mais famosos são Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) e O Alienista (1882), que na verdade é uma novela.

3. Qual a diferença entre a primeira e a segunda fase de Machado de Assis?

A primeira fase (décadas de 1860 e 1870) era romântica: livros com casais, desencontros e finais previsíveis, como Ressurreição e Helena. A segunda fase, iniciada com Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881, é realista: narrativa irônica, pessimista, com personagens moralmente ambíguos e uma visão crítica da sociedade. É a fase pela qual ele é mais conhecido.

4. Por que Machado de Assis é chamado de Bruxo do Cosme Velho?

O apelido foi popularizado por Carlos Drummond de Andrade depois da morte de Machado. “Cosme Velho” era o nome da rua onde ele morou por muitos anos. “Bruxo” não é por nenhum motivo sobrenatural. É uma referência à capacidade que ele tinha de enxergar os mecanismos mais escondidos da alma humana e descrevê-los com precisão.

5. Machado de Assis foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras?

Sim. Machado de Assis foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Também foi o primeiro presidente, cargo que ocupou até morrer, em 1908.

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