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Memórias Póstumas de Brás Cubas: análise do clássico de Machado de Assis (e o que eu mais gostei no livro)

Delírio de Brás Cubas, com a figura colossal de Natureza ou Pandora, enquanto o protagonista está febril e delirando em sua cama.

Não é fácil ler Memórias Póstumas de Brás Cubas quando estamos no Ensino Médio. A sensação que temos é a de que o livro é chato demais. Quando ganhamos mais idade, porém, começamos a entender camadas que antes estavam fora do nosso alcance.

Quero explicar do que se trata essa obra de Machado de Assis, mas também contar o que senti ao lê-la, especialmente quando o protagonista delira.

Vai ter spoiler? Um pouco, sim. Mas não o suficiente para estragar a sua experiência enquanto estiver lendo esta que é uma importante obra da literatura brasileira clássica.

Quem é Brás Cubas?

Brás Cubas é um homem rico do Rio de Janeiro do século XIX que, após morrer, decide escrever suas memórias. Um arrependido de última hora? Nada disso. Ele só quer usar a liberdade de dizer o que pensa, já que está morto mesmo.

A dedicatória já entrega o tom: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.”

Brás Cubas é um anti-herói assumido. Ele não se vitimiza, não se desculpa, nem tenta parecer melhor do que foi. O que ele faz é contar, com uma ironia cortante como navalha, os episódios que escolheu lembrar. Você que se vire para decidir o que sentir sobre ele.

Contexto histórico e literário

Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1881 e se tornou o marco de abertura do Realismo no Brasil. Até então, a literatura brasileira vivia mergulhada no Romantismo, com seus heróis idealizados, amores impossíveis e finais trágicos ou redentores. Machado de Assis mandou tudo isso embora pelo ralo e escreveu um livro em que o protagonista morre antes de começar a contar a história.

CaracterísticaRomantismoRealismo (Machado)
HeróiIdealizado, corajoso e apaixonadoImperfeito, egoísta e cínico
AmorPuro, eterno e inabalávelInteresseiro, frustrado e passageiro
NarrativaLinear, emocional e previsívelFragmentada, irônica e imprevisível
FinalRedentor ou trágico com propósitoAberto, ambíguo e sem lição de moral
SociedadePano de fundo exótico ou idealAlvo de crítica feroz e direta

Percebe o que Machado estava dizendo? Chega de fingir que o mundo é bonito. Vamos falar sobre como as pessoas realmente são.

Resumo da trama

Se está acostumado com histórias lineares, que têm começo, meio e fim, você pode se sentir meio perdido. Brás Cubas narra sua vida em fragmentos. Um capítulo sobre a infância, outro sobre um amor, outro sobre uma teoria filosófica absurda, outro sobre um episódio aparentemente banal que, de repente, revela algo profundo.

A trama, se é dá para chamar assim, nos apresenta:

  • A infância mimada de Brás Cubas, filho de uma família abastada.
  • O primeiro amor, Marcela, uma cortesã espanhola que só o amava enquanto ele tivesse dinheiro.
  • A juventude na Europa, onde estudou, mas não aprendeu grande coisa.
  • O grande amor da vida, Virgília, mulher por quem se apaixona, mas que acaba se casando com outro (Lobo Neves).
  • A carreira política que nunca decola de verdade.
  • O amigo Quincas Borba, que enlouquece e cria sua própria filosofia, o “Humanitismo” (veja meu post sobre Dom Casmurro para entender do que se trata essa teoria fictícia).
  • A velhice solitária, cercado de poucos afetos e muitas lembranças.
  • A morte, claro, narrada nos primeiros capítulos, causada por uma pneumonia contraída enquanto ele perseguia fixamente a ideia do seu emplastro medicinal.

A vida de Brás Cubas é feita de pequenas derrotas, oportunidades perdidas e uma percepção de que talvez nada disso tenha feito diferença. Você conhece alguém assim? Eu conheço. Já vou falar sobre isso.

Personagens principais

PersonagemPapel na históriaCuriosidade
Brás CubasProtagonista e narrador defuntoNão é mau, nem é bom. É humano. Na verdade, humano demais para ser herói.
VirgíliaO grande amor (frustrado) de BrásMais esperta e pragmática do que ele jamais foi.
Quincas BorbaAmigo e filósofo excêntricoInventor do “Humanitismo”, uma sátira ao cientificismo e ao darwinismo social.
MarcelaPrimeiro amor de BrásCortesã que explicou a ele, cedo, que o amor tem preço.
EugêniaUma paixão passageiraBrás a chama de “a flor da moita”. Apesar de se sentir atraído por ela, Brás a rejeita.
Nhã-lolóNoiva arranjadaO casamento nunca acontece. Mais um projeto que Brás deixa pelo caminho.

O estilo inovador de Machado

Nunca leu Machado? Você está para encarar algo que não parece um livro do século XIX. Parece mais um blog ou um podcast escrito. Talvez uma conversa de boteco de alguém brilhante e amargo.

  • Narrador não confiável: Brás Cubas conta sua versão da história. Cabe a você desconfiar dela.
  • Digressões constantes: Ele interrompe a narrativa para filosofar, fazer piada ou criticar o leitor.
  • Metalinguagem: Em vários momentos, Brás fala sobre o próprio ato de escrever. Por exemplo, “Pode saltar o capítulo; vá direito à narração”, “Estou com vontade de suprimir este capítulo” e “Não contarei o caso nesta página”.
  • Capítulos experimentais: O Capítulo 55 (“O velho diálogo de Adão e Eva”) é todo escrito em reticências, interrogações e exclamações. Sobre o Capítulo 139 (“De como não fui ministro d’Estado”), você tem que ver por si mesmo.
  • Frases curtas e cortantes: Em vez de se alongar, Machado diz, como que desferindo um golpe.

O delírio de Brás Cubas: Natureza ou Pandora?

Entre tantos episódios memoráveis, há um que se destaca para mim. No capítulo 7, Brás Cubas está febril e delirando. Ele tem uma visão de uma figura colossal que se apresenta assim: “Eu sou Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.” A cena é absurda, onírica. Quase surrealista para um livro do século XIX.

Na mitologia grega, Pandora recebe um jarro (com o tempo, populariza-se a versão em que ela recebe uma caixa) e é instruída a nunca abrir o objeto. Mas ela abre e liberta todos os males do mundo. O que fica preso no fundo é a esperança.

Ao escolher Pandora como contraparte da Natureza, Machado transmite a ideia de que a vida é, em sua essência, uma fonte de sofrimento. O mundo é uma caixa aberta.

Esse pessimismo está entranhado no livro. Brás Cubas narra sua vida como uma sucessão de fracassos, alguns cômicos, outros melancólicos, quase todos evitáveis:

  • Amou Marcela, mas ela só o quis enquanto ele pagou.
  • Amou Virgília, mas ela se casou com outro.
  • Tentou a política, mas nunca foi levado a sério.
  • Tentou inventar um emplastro medicinal revolucionário, mas morreu antes de concluí-lo.
  • Morreu sentindo que não fez nada importante.

Cada episódio reforça a tese do delírio: a vida é uma inimiga disfarçada de mãe. Ela promete, mas não entrega.

Uma reflexão que o livro despertou em mim

Ler Memórias Póstumas de Brás Cubas me fez pensar em alguém que conheci. Uma pessoa extremamente pessimista, que via perigo em tudo. Cada decisão era precedida de horas imaginando o pior cenário possível. Mudar de emprego? E se der errado? Viajar? E se acontecer algo? Conhecer alguém? E se essa pessoa me machucar?

Sabe o que aconteceu? Ela não mudou de emprego, não viajou, nem construiu relacionamentos. Em certo período da vida, adoeceu seriamente. Chegou a delirar e alucinar. Quem estava à sua volta percebia que aqueles delírios não eram exatamente uma invenção provocada pela doença. Eram os medos que ela havia cultivado a vida inteira, finalmente tomando conta.

Eu me vi nessa história também, parcialmente. Já fui muito pessimista. Durante anos, a ansiedade foi minha companheira. A depressão ainda vive num canto da minha mente. Não sumiu, apenas aprendi a conviver com ela. Mas uma coisa mudou: a percepção de que o risco de não fazer nada é, muitas vezes, maior que o risco de tentar.

No mundo das finanças, existe um conceito interessante: a relação risco-retorno. Quanto maior o risco, maior pode ser a recompensa, quando ela vem. Se você não corre risco nenhum, também não tem a possibilidade de colher alguma coisa.

Com o tempo, percebi que isso se aplica à vida como um todo. Brás Cubas não correu riscos. Ele flutuou. Deixou a vida acontecer com ele, em vez de fazer a vida acontecer por ele. E no final não sobrou nada além de um livro escrito por um morto.

Ao nos mostrar Brás Cubas, um homem que teve oportunidades e ainda assim fracassou, Machado nos força a questionar: o que estou fazendo com a minha caixa aberta?

O livro que ri de si mesmo

Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro que não se leva a sério. Brás Cubas morreu sem aprender nada. Reconheceu seus fracassos, os narrou com ironia, e ainda assim não mudou. Não houve redenção. Não houve crescimento. Houve apenas a honestidade de quem, estando morto, já não precisa mais fingir.

O livro pergunta: você está vivendo ou apenas adiando?

Capa do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

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Perguntas Frequentes sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas

É necessário ler outros livros de Machado antes?

Não. Memórias Póstumas de Brás Cubas funciona perfeitamente como primeira leitura. Na verdade, é um bom ponto de partida. Você conhece o estilo, o humor e as obsessões do autor. Depois, Dom Casmurro e Quincas Borba vão fazer ainda mais sentido.

O livro é muito difícil? A linguagem é acessível?

A linguagem é do português culto do século XIX, mas não é rebuscada a ponto de ser incompreensível. Machado escrevia com clareza e ironia. No começo, você pode estranhar algumas construções, mas em poucos capítulos já pega o ritmo. É mais fácil que ler José de Alencar, por exemplo.

Quantas páginas tem?

Depende da edição, mas gira em torno de 250 a 300 páginas. É um livro relativamente curto, principalmente considerando que é uma das maiores obras da literatura brasileira.

Vale a pena ler se eu não gosto de literatura clássica?

Talvez sim. Memórias Póstumas não se comporta como um clássico tradicional. O humor ácido, as digressões e a estrutura experimental lembram mais um escritor contemporâneo do que um autor do século XIX. Se você gosta de narrativas que brincam com a forma, vai se surpreender.

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