Mateus construiu uma casa. Será que era um palácio? Uma obra de arquitetura notável? Não era. Mas isso não importa. Era a casa dele, feita com o suor e o dinheiro que conseguiu juntar. E ele gostava de admirá-la. Passava tempo contemplando o que tinha construído.
Para Simão Bacamarte, isso era sintoma de doença. “O albardeiro talvez padecesse do amor das pedras”, diagnosticou o alienista. Uma mania que ele já estudava havia algum tempo.
A questão é: quando foi que admirar a própria obra virou loucura?
Essa passagem de O Alienista me fez pensar em uma cena de The Big Bang Theory. Penny diz que Sheldon e os amigos são estranhos. Sheldon responde que ela é a estranha do grupo. Os dois estão certos. A normalidade depende do referencial. E é justamente sobre isso que Machado de Assis escreveu na melhor novela da literatura brasileira clássica.
A história em poucas linhas
Simão Bacamarte é o maior médico de Itaguaí. Estudou na Europa, mas recusou ser o reitor da Universidade de Coimbra ou expedir os negócios da monarquia em Lisboa. “Itaguaí é o meu universo”, disse Bacamarte à Sua Majestade, em seguida retornando à sua cidade, onde entregou-se de corpo e alma ao estudo da mente humana.
Ele convence a Câmara Municipal a financiar a Casa Verde, um hospício moderno para tratar os loucos da região. Começa internando alguns casos óbvios. Depois começa a encontrar loucura em pessoas que ninguém considerava loucas. Depois descobre que quase todo mundo tem algum desvio.
A história tem mais reviravoltas do que você talvez imagine. Mas, para falar a verdade, o enredo nem é o elemento mais importante da obra. O melhor é ver o que Machado consegue fazer enquanto conta a história.
O albardeiro e o amor das pedras
Mateus é albardeiro; faz arreios para cavalos. Não é um intelectual, não é um artista, não é um gênio. É um trabalhador que juntou dinheiro e construiu uma casa. Depois de pronta, ele gostava de olhar para ela.
Bacamarte interpreta aquilo como mania. “Amor das pedras”. Um diagnóstico que transforma o prazer de um homem em patologia.
O que me chama atenção nessa passagem é como ela expõe um mecanismo sutil: quando alguém se dedica muito a alguma coisa, o mundo ao redor tende a achar estranho. Se você passa horas desenhando, é excêntrico. Se estuda um assunto por pura paixão, é obcecado. Se adora a casa que construiu, talvez padeça do amor das pedras.
A verdade é que o que importa para cada um de nós geralmente importa só para nós. E talvez para mais uma pessoa, se tivermos sorte. O resto do mundo não está preparado para entender por que aquela casa, aquele desenho, aquele livro, aquele código, aquela música é tão importante para você.
O método de Bacamarte
Bacamarte é um homem da ciência e estava determinado a aplicar o método científico à mente humana. O problema é que, para classificar a loucura, primeiro é preciso definir o que é “normal”. E é ele quem faz essa definição.
O método de Bacamarte é impecável no papel. Ele observa, registra, classifica e diagnostica. Mas ele não percebe que o observador também está dentro do quadro. Ele examina os outros como quem examina borboletas numa coleção, sem jamais suspeitar que a mão que segura o alfinete também pode estar doente.
Você já conheceu alguém assim? Alguém que tem uma teoria sobre o mundo e passa a vida encontrando evidências para confirmá-la? Bacamarte é o avô de todos os que explicam o comportamento alheio com absoluta certeza, sem jamais desconfiar de si mesmos.
A Revolta dos Canjicas
Durante um tempo, Itaguaí aceita as internações. As pessoas desconfiam umas das outras, temem ser as próximas, cochicham sobre quem está na lista. Mas chega um ponto em que a tensão transborda.
A população se revolta. Liderados por figuras locais que se sentem ameaçadas pela possibilidade de serem internadas a qualquer momento, os moradores marcham contra a Casa Verde. Exigem o fim das internações abusivas. Discursos inflamados tomam as ruas. A Câmara Municipal é pressionada. O movimento ganha contornos de levante político contra a tirania científica.
A Revolta dos Canjicas é o momento em que o senso comum reage contra o poder desmedido da ciência. Itaguaí diz: “Chega!”.
Mas a revolta não dura. Bacamarte, com sua autoridade e o apoio das instituições, consegue sufocar o movimento. O povo volta para casa. As internações continuam. E a história segue em direção ao seu desfecho mais irônico.
Machado de Assis escreveu isso no final do século 19, mas o mecanismo se repete em todo contexto onde uma autoridade declara o que é normal e o que é desvio. Redes sociais que definem o comportamento aceitável. Escolas ou professores que tratam curiosidade como indisciplina. Sistemas que patologizam quem não se encaixa. A revolta vem, mas nem sempre vence.
Ser chamado de louco (e gostar)
O final do livro é uma grande virada. Bacamarte, depois de internar meia cidade, chega a uma conclusão. E é óbvio que não vou contar o que ele decide fazer.
Machado foi genial ao mostrar que a linha entre razão e loucura não é fixa. Ela se move dependendo de quem segura o compasso.
Lembra do Sheldon dizendo que Penny é a estranha? Ele está sendo sincero. Da perspectiva dele, ela é que não faz sentido. Sheldon opera numa lógica diferente. E o mesmo vale para Bacamarte e o albardeiro Mateus. Quem está louco depende de quem está julgando.
Se você já foi chamado de estranho por gostar de alguma coisa com intensidade, seja bem-vindo ao clube. Talvez você esteja são. Talvez o mundo ao seu redor é que tenha dado o diagnóstico errado. É tipo o conflito que Dostoiévski explora em Noites Brancas, com um sonhador que não se encaixa e uma cidade que não entende.
O que importa é que, como Machado de Assis sabia muito bem, ser chamado de louco não é necessariamente um insulto. Depende de quem está falando.
Eu, sinceramente, me sinto lisonjeado.
A casa que vale a pena admirar
Mateus, o albardeiro, foi recolhido à Casa Verde. O livro não diz o que aconteceu com ele depois, nem com a casa que ele construiu. C casa deve ter ficado lá, vazia, esperando alguém que pudesse admirar suas pedras sem ser diagnosticado por isso.
Tem uma beleza triste nisso. Um homem construiu algo com as próprias mãos e foi punido por contemplar o resultado. Chamar aquilo de doença diz mais sobre quem diagnostica do que sobre quem é diagnosticado.
O Alienista é um livro sobre um médico que queria entender a loucura e descobriu que ela estava em todo lugar, menos onde ele procurava. Ou talvez estivesse também ali, nos diagnósticos apressados, na certeza de que os outros é que estão errados.
Leia O Alienista. São oitenta páginas que você termina em uma tarde. Depois me conta: qual é a sua casa que você adora admirar?


O Alienista, de Machado de Assis
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Perguntas frequentes sobre O Alienista
1. O Alienista é um romance ou um conto?
Tecnicamente, é uma novela. Tem cerca de 80 páginas nas edições mais comuns, o que a coloca entre um conto longo e um romance curto. Foi publicada originalmente em folhetins no jornal A Estação (entre 1881 e 1882) e, em 1882, reunida no livro Papéis Avulsos. Dá para ler em uma tarde.
2. Qual a mensagem principal do livro?
Machado questiona quem tem autoridade para definir o que é loucura. Bacamarte é um cientista respeitado, mas seus diagnósticos revelam mais sobre ele do que sobre os pacientes. O livro é uma crítica à pretensão de querer encaixar a complexidade humana em categorias fechadas.
3. Por que o livro tem esse título?
“Alienista” era o termo usado no século XIX para designar o médico especializado em doenças mentais (hoje diríamos psiquiatra). O título é uma ironia: o especialista em alienação acaba sendo o mais alienado.
4. O Alienista é mais engraçado ou mais triste?
Os dois. Machado escreve com um humor seco e irônico que faz você rir de situações absurdas. Mas, quando o riso passa, fica uma sensação incômoda, porque você percebe que o absurdo está também no mundo real. Pessoas são rotuladas, patologizadas e excluídas por não se encaixarem no que alguém decidiu que é normal.
